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domingo, 28 de novembro de 2010

Medvedev anuncia "desestalinização" da Rússia


Após duas grandes campanhas de desestalinização, sob Kruschev e Gorbachev, a Rússia viverá sua terceira onda anti-stalinista. O Presidente Medevedev a anunciou nesta sexta, dia 26, junto com a sua viagem oficial a Polônia.


O fantasma do Comunismo: Stálin

Historicamente, após sua morte, Stálin se transformou como o ícone de tudo que dá errado na Rússia. Se a produção de grãos caiu, é culpa de Stálin. Se a economia está estagnada, a culpa é de Stálin. Se os chechenos estão se revoltando, é culpa de Stálin. Se tornou um modo corriqueiro do governo russo se esquivar de suas responsabilidades na violenta crise que acertou a nação com a queda do socialismo. Não importa se ele e o sistema a qual lutou sua vida inteira já foram enterrados há um bom tempo. Há sempre persistências. Afinal, o marxismo é uma "doença" infecciosa monstruosa que acaba com toda o "bem" que o capitalismo foi capaz de produzir para humanidade. Se o capitalismo dá errado, certamente é por causa do passado marxista da Rússia. "Ah, a época de transição foi mal conduzida. Infelizmente o stalinismo ainda não foi erradicado". Procurem ir atrás de qualquer problema na Rússia nas últimas décadas, esta é sempre a desculpa oficial.

Comemoração do Dia da Vitória sobre o Fascismo conta com a presença de Stálin em São Petersburgo

Ora, é muito mais fácil jogar a culpa nos outros do que admitir o fracasso de todo o sistema que supostamente salvaria os russos da "ditadura monstruosa". Ditadura esta, que terrivelmente garantia à população um sistema de saúde eficiente e de graça, infra-estrutura pública de primeira qualidade, educação de alto nível para todos, emprego, direitos trabalhistas avançadíssimos, um baixíssimo custo de vida, segurança e baixíssima taxa de criminalidade, etc. Enquanto isso, o sistema "salvador" trouxe a miséria de volta à Mãe Rússia, a fome, o sucateamento da educação e da saúde, a queda brusca de padrão de vida para a maioria da população, o crime organizado, a corrupção sistêmica e um Estado inoperante e muito pouco preocupado com sua população.

Manifestação comunista na Rússia. Camarada Stálin presente!

Realmente, a culpa é de Stálin, Sr. Medvedev. Este monstro horrendo que ousou derrotar e humilhar os fascistas! Olha que crime! Que ousou esfacelar as velhas elites e modernizar a Rússia. Que ousou dar poder a ralé, fortalecendo os sindicatos e a organização da classe trabalhadora. Que ousou unir dezenas de povos sob a única bandeira da solidariedade comunista e permitir que Cazaques estudassem de graça na gloriosa Rússia, que Tadjiques se "apoderassem" dos conhecimentos técnicos das indústrias russas e que Russos gastassem sua grande "superioridade" intelectual na construção de fábricas, colégios e hospitais nestas repúblicas islâmicas e asiáticas "inúteis". Realmente Sr. Medvedev, a culpa é de Stálin.

Cartaz de Stálin decora as ruas na Rússia

Mas o que esta nova onda de desestalinização realmente mostra é a força e o apelo popular que Stálin goza na velha Rússia. É o fantasma do comunismo. Este ano pudemos observar a crescente nostalgia acerca dos velhos tempos soviéticos na Rússia, o crescimento dos movimentos comunistas. As manifestações populares em marcos históricos comunistas foram enormes. Centenas de milhares de russos foram às ruas no aniversário da Revolução, no Primeiro de Maio, no aniversário de 130 anos de Stálin, no dia da Vitória. E Stálin, agora sim, era onipresente. Cartazes, fotos, tatuagens. O povo marchava e ainda marcha por Moscou carregando orgulhosamente a imagem do grande líder bolchevique, mesmo após meio século de difamação e de bombardeamento ideológico anti-Stálin. E não são meia dúzia de pessoas, são centenas de milhares, são multidões.

Milhares de russos marcham na Praça Vermelha no aniversário de Stálin

Qual será a explicação disso? Ainda há a "lavagem cerebral" do Grande Irmão soviético? Ou será que o Memorial ainda não despejou o tanto de propaganda direitista e reacionária necessárias para "iluminar" o ignorante povo russo? A verdade é que, doa a quem doer - anti-comunistas, liberais, membros de organizações de "direitos humanos", etc. - o povo russo vivia muito melhor sob Stálin do que sob qualquer outro regime implantado por aquelas bandas. 95% da população era privilegiada pelo governo, que investia pesado em cultura, educação, saúde, transporte, segurança, agricultura, indústria, etc. 95% da população representada pelas classes operária e camponesa. Mas enquanto isso, 5% da população amargava a perda de seus privilégios monárquicos e capitalistas. Coitado deles, não podiam mais explorar a força de trabalho alheia para enriquecerem. Não podiam mais deixar seus servos e operários passarem fome para que tivessem dinheiro para construir seus magníficos palácios. E pior, ainda tinham que trabalhar na terra! Pegar na enxada e trabalhar ombro a ombro com seres primitivos e bárbaros! Olha que ultraje!


Stálin vive!

Estes pobre coitados voltaram ao poder. E agora tremem as bases quando vêem o povo caminhando pelas ruas com imagens de Stálin. Eles sabem muito bem o poder do comunismo, o poder do povo. Sabem que são minoria, e que, se o povo quiser, suas cabeças rolarão. Frente à volta deste terrível fantasma à Mãe Rússia, a única saída é a boa e velha desestalinização. Aumentar o controle ideológico sobre a população, suprimir a força dos comunistas e transformar as manifestações populares em crime.


Milhares de russos homenageiam os 130 anos de Stálin


terça-feira, 12 de outubro de 2010

União Soviética, 1932 (O dia-a-dia no país dos Sovietes) Parte II



Após falar um pouco de Moscou, Sir Newsholme começa a descrever suas impressões acerca de Leningrado. Todavia, ele apenas menciona as instituições voltadas à saúde pública, sem desenvolver muito mais do que isso. Ele direciona muitos elogios aos hospitais, clínicas, etc., afirmando que são bastante modernos e bem capacitados. E aí termina o primeiro capítulo do livro.

O segundo chama-se "De Moscou para a Geórgia e Criméia". Este capítulo basicamente narra a viagem do britânico em um barco através do Volga, viagem a qual ele visita uma série de cidades e de diferentes regiões soviéticas. De acordo com ele, o barco estava sempre lotado; entravam muitas pessoas e saíam bastante também a cada parada. A maior parte dos passageiros eram de camponeses pobres, cheios de caixas, frutas, animais. Muitas coisas as quais eles venderiam em algum centro urbano. A embarcação seguia tão lotada que muitos dormiam no convés mesmo. Ao que parece ela tinha quatro classes, reflexo de uma União Soviética ainda em desenvolvimento e ainda marcada pelas diferentes classes sociais: operários, camponeses pobres, kulaks, estratos médios (como funcionários da administração estatal), entre outras. A primeira e segunda classes ofereciam certo conforto, já a terceira ficava mais apertada enquanto que a quarta ficava no convés do navio mesmo.

Sir Newsholme segue descrevendo no capítulo suas visitas a várias cidades, sempre focando nas questões relativas à saúde. Da Geórgia à República dos Tártaros e à Ucrânia. Suas impressões são de que o desenvolvimento e a modernização estão chegando até nas menores e menos importantes partes da nação, não sendo Moscou e Leningrado lugares privilegiados por sua centralidade e importância. Todavia o que importa mesmo neste capítulo são alguns episódios que ocorreram dentro da embarcação. Como, por exemplo, a sabotagem terrorista ocorrida em uma ponte sobre o Volga.

Após o barco passar por Samara, ele aproximou-se de uma vila chamada Batraki, onde havia uma ponte ferroviária que atravessava o Volga. Uma ordem soou no barco para que todos buscassem abrigo. O britânico então revela que dois vãos da ponte haviam sido explodidos por terroristas. Os soviéticos disseram então que de tempos em tempos ainda haviam ataques contra-revolucionários. O que é algo revelador, já que normalmente se trata o perigo da contra-revolução como paranoia dos comunistas, o que de fato nunca foi. Pois os casos de sabotagem, assassinato de políticos importantes, espionagem, etc., eram muito comuns na URSS.

A viagem segue, e o britânico encontra um financista americano de Wall Street. Ele vinha visitando as novas indústrias que vinham sendo montadas na União Soviética e, nas palavras de Sir Newsholme, o americano estava tão impressionado com as indústrias soviéticas quanto ele próprio estava com o sistema de saúde pública. O que mais impressionou o americano foi a liberdade a qual os trabalhadores tinham em criticar os gestores das fábricas e seus companheiros de trabalho. Para o homem de Wall Street, o sucesso da experiência soviética dependeria em larga medida desta liberdade de crítica individual - opinião a qual eu também compartilho. Mas nem tudo eram glórias, o homem de negócios viu bastante ineficiência nas fábricas visitadas, porém completou que era do tipo que logo seria remediada.

Quanto a vida comum, Sir Newsholme continua batendo na tecla da felicidade das pessoas. Das cantorias, da hospitalidade, do calor humano e da importância da socialização das pessoas. No fim da primeira parte deste capítulo, ele fala um pouco sobre a vida noturna em Stalingrado. As pessoas pareciam se concentrar no Parque de Cultura e Descanso, participando de festivais de música, dança folk, entre outras coisas.

A próxima parte do capítulo se chama "Através do Cáucaso Setentrional". E o britânico basicamente fala sobre como ele ficara impressionado com o progresso daquela região. Para todos os lados ele via fazendas, plantações, tratores e máquinas novas; nas cidades, novos apartamentos e casas, escolas, hospitais, etc. O desenvolvimento vinha chegando rapidamente, se espalhando pelo país mesmo em regiões antes abandonadas e pouco importantes para o poder central. Sigo então para a próxima parte, "Geórgia Subtropical". Aqui Sir Newsholme fala mais sobre suas visitas a sovkhozes (Fazendas do Estado) e a kolkhozes (Fazendas de cooperativas).

Esta parte é bastante interessante, pois mostra a preocupação dos soviéticos em acabar com a velha oposição entre campo e cidade, a qual Marx e Engels viam como uma das grandes contradições do capitalismo. As fazendas, sejam cooperativas ou estatais, eram basicamente cidades rodeadas de gado e/ou plantações. Havia apartamentos e residências, escolas, hospitais, creches, enfim, tudo que cidades normalmente possuíam. Os trabalhadores viviam nas fazendas, assim como os administradores e gestores. Cada propriedade rural era um mini centro urbano.

Em uma destas fazendas, um enorme e bem administrado kolkhoze, que consistia da junção de 153 pequenas fazendas, ocorreu uma cena do dia-a-dia que achei bem interessante. Na visita de Sir Newsholme a uma creche do kolkhoze, ele foi acompanhado pelo Secretário do Partido Comunista da região da Geórgia. O britânico disse que ele era amado pelas crianças e que, quando entrou na sala onde elas se encontravam, as saudou com:

"Vocês estão prontos para o trabalho e a defesa?"

E os pequenos se levantaram e o saudaram, respondendo:

"Sempre prontos!"

Ao que parece era uma tradição no país, repetida por todos os lados. Sir Newsholme disse que vira por toda a nação cartazes com o lema de que cada cidadão soviético devia estar pronto para o trabalho e para a defesa.

Esta parte do capítulo termina com o britânico descrevendo as redondezas de Batum, que fica no Mar Negro. Ele disse que havia muitos palácios luxuosos que um dia pertenceram a nobres e a realeza russa, mas que agora eram hotéis voltados aos trabalhadores. Era hábitos dos trabalhadores soviéticos, durante suas férias, viajarem para esses antigos palácios para apreciarem a boa vida da falecida e opulenta classe dominante do Império. Boa parte dos custos da viagem eram pagos pelos sindicatos, cerca de 30%.

Daí chega-se a próxima parte do capítulo, "No Mar Negro". Nesta parte, Sir Newsholme conversa com uma série de pessoas proeminentes da União Soviética, falando desde a liberdade de imprensa até aspectos do trabalho. Ao discutir sobre a liberdade de imprensa, Sr. Minkow, um dos editores da Rádio Jornal do Trabalho, diz que há espaço para tudo que não seja "contra-revolucionário" ser publicado. Ou seja, não havia espaço para publicações anti-soviéticas e anti-comunistas. O britânico também conversou com a doutora Olga Borisowna Lepeschinskaya, professora de Histologia na Academia Comunista de Moscou. Ela fala sobre as "brigadas de choque", que eram utilizadas para aumentar a produtividade entre os trabalhadores. Elas consistiam de grupos de trabalhadores que competiam entre si para ver quem produzia mais, os mais produtivos obviamente eram premiados. Quem seria ou não premiado era tópico de discussão nos "encontros de produção" de todos os trabalhadores de determinado local. Esta lógica era aplicada nos mais variados ramos, inclusive no ramo científico e acadêmico o qual Olga fazia parte. Outro ponto discutido é o dos jornais de parede, presentes em todos os ambientes de trabalho. Newsholme não fala muito deles por agora, mas diz que eram instrumentos para as críticas individuais de cada trabalhador acerca de todo e qualquer problema que ocorresse no ambiente de trabalho.

No último ponto que julgo importante nesta parte, o britânico fala sobre o enorme e luxuoso palácio de Livadia, que antes pertencia ao próprio Czar. Após sua expropriação, foi transformado em resort de férias para os operários e camponeses mais produtivos. Certamente viver na residência de Imperadores por algumas semanas deveria ser uma experiência e tanto para trabalhadores comuns.

O capítulo acaba com "A Capital da Ucrânia", parte a qual o britânico fala sobre Kharkov. Basicamente se detém só nas questões de saúde pública e não fala nada muito interessante para mim. E aqui acaba as observações de maneira mais geral. No próximo artigo, procurarei falar especificamente sobre as condições das indústrias na União Soviética.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

União Soviética, 1932 (O dia-a-dia no país dos Sovietes) Parte I


Sala de espera de um hospital em Moscou

Em plena "ditadura stalinista", o britânico Sir Arthur Newsholme foi à União Soviética inspecionar o sistema de saúde soviético para escrever seu livro, intitulado "Red Medicine". Durante cerca de um mês e meio ele e sua equipe desbravaram o enorme território vermelho, anotando suas impressões. Newsholme era um médico renomado na Inglaterra, um dos pioneiros no estudo e na implantação de políticas de saúde pública no Ocidente. Não encontrei qualquer traço de simpatias ao comunismo em pequenas biografias que procurei na internet, muito menos em seus relatos. No entanto, ele me pareceu estranhamente honesto para um ocidental e seus comentários são muito sóbrios em relação à vida e ao regime soviético, sem jamais espalhar boatos sobre escravidão ou sobre a "maldade" de Stálin e de outros líderes comunistas. É uma das poucas pessoas ao longo do século XX que detém o mínimo de objetividade científica e não visa imputar sua visão de mundo aos leitores.

Sua pesquisa serviu como base para a criação de políticas de saúde pública mais eficientes no ocidente, principalmente na Grã-Bretanha, uma das "pequenas" dívidas que o capitalismo tem com o comunismo. Porém, não tenho a menor pretensão de falar em minúcias sobre a medicina soviética. O que me interessa na obra de Sir Newsholme são suas observações acerca da vida na URSS, numa época em que, de acordo com a História Oficial, os soviéticos viviam sob a mais terrível e implacável das ditaduras totalitárias.

Na terceira parte de "Red Medicine", intitulada "Moscow and Leningrad", Sir Newshome fala um pouco de suas impressões sobre Moscou primeiro e, depois, sobre Leningrado. Uma das coisas que mais chama a atenção é a felicidade e a esperança estampadas nas faces dos moscovitas, desde as crianças aos mais velhos. O britânico diz que para todos os lados da URSS ele ouvia as pessoas cantando e via-as sorrindo. Não havia aquela atmosfera cinzenta de medo e terror tanto pregada por aí, o que corrobora com os estudos do historiador Robert Thurston em sua obra "Life and Terror in Stalin's Russia". Não havia aquele clima de paranóia e intrigas entre a população, clima supostamente criado pela perseguição violenta da polícia política soviética contra qualquer pessoa que discordasse minimamente do sistema soviético.

Ele segue falando sobre como a cidade era extremamente movimentada e como a população vinha crescendo de maneira espantosa nos últimos anos. Resultado disso foi um grande problema de habitação. Ele diz que apesar dos enormes blocos novos de apartamento que vinham sendo construídos, muitas famílias ainda tinham que viver juntas e apertadas, além de haver na cidade uma série de dormitórios públicos para abrigar os desabrigados. Além disso, era visível um "boom" no setor de construções, com novas fábricas, clubes para trabalhadores, parques de lazer, escolas, prédios comerciais, entre outras coisas.

Outro ponto interessantíssimo que é abordado é o fato de que a fome era discutida abertamente pela população, o que mostra que o governo soviético não escondia seus podres do povo como é normalmente dito por aí. Mas que fome seria essa? O próprio Newsholme explica, demonstrando um conhecimento profundo acerca da União Soviética de sua época, algo extremamente incomum para um ocidental. Ele diz que a URSS parecia não ter se recuperado ainda da destruição dos meios de produção agrícolas (basicamente cavalos, gados na época) promovidas pelos kulaks durante a coletivização de terras. Estima-se que a resistência desta última classe czarista russa tenha resultado em uma destruição de cerca de 50% dos meios de produção agrícola, sem contar que no início dos anos 30, a URSS passou pela pior seca dos últimos tempos. Esta combinação de fatores resultou em um triste e terrível período de fome, mas que, felizmente, foi contornado em cerca de dois anos.

Sir Newsholme descreve filas para se conseguir comida em açougues e outras lojas de alimentos. Ele disse que o que mais faltava era carne boa e leite. Então ele fala sobre grandes cozinhas comunais pela cidade, onde a refeição era vendida por 60 kopecks (ou cerca de 30 centavos de dólar), e sobre as refeições que eram oferecidas nas fábricas também. Duas interessantes formas de combate à fome.

Um dos pontos mais importantes para o dia-a-dia dos soviéticos era o Parque de Cultura e Descanso. Onde as pessoas se reuniam para o lazer e para estreitar suas relações pessoais. Havia de tudo por lá, danças folclóricas e populares, cantorias, jogos e brincadeiras para crianças, natação, remo, etc. O britânico informa também que, de acordo com a filosofia soviética, parques como este eram importantes para demonstrar o valor de atividades de socialização.

Outra situação que bate de frente contra o paradigma totalitário é o filme visto por Sir Newsholme em um cinema soviético, intitulado "A Estrada para a Vida". Baseado nos príncipios do Realismo Socialista, o filme é sobre problemas da realidade soviética, mostrando-a nua e crua, sem censuras. O normal de um governo totalitário é esconder seus podres, filmes como este deveriam ser prontamente proibidos por um governo que visa mostrar que seu país é um paraíso, já que ele aborda o problema da criminalidade juvenil. O filme dramatiza a necessidade da educação de qualidade para crianças de rua para prevenir que elas se tornem criminosas. Sim, havia crianças de rua e mendigos nesta época na URSS, apesar de que Sir Newsholme disse que era em bem menor quantidade que na Europa em geral. Agora imaginem um filme de Joseph Goebbels e Leni Riefenstahl acerca de um problema tão contrangedor para um governo como este. Seria possível? Jamais o Ministério da Propaganda nazista permitiria que algo assim fosse produzido.

A vida soviética era marcada também pela grande presença de eventos culturais. Teatros e óperas eram tomados por pessoas. Operários e camponeses lotavam lugares que no ocidente eram tomados apenas por nobres e burgueses. E Sir Newsholme descreve como os soviéticos apreciavam bastante tais espetáculos. Isto reflete a educação e a cultura cada vez mais elevadas das massas soviéticas que, há apenas duas décadas atrás viviam no obscurantismo, na miséria e na completa ignorância.

Neste primeiro relato de impressões sobre Moscou, Sir Newsholme trata de uma última questão que julgo de grande importância: o tratamento de criminosos. Ele visita uma comuna de trabalho para reabilitação de prisioneiros chamada Bolshevo, a cerca de 50 quilômetros de Moscou. Ela foi construída para pessoas que cometeram pequenos crimes como roubo e incêndio culposo. Havia cerca de 2.200 pessoas vivendo nesta "prisão". O interessante é que as famílias dos criminosos vão para lá também e o local é como uma pequena vila. Tem escola, hospital, clínica, loja de cooperativas e apartamentos de habitação. Os criminosos trabalham na criação de artigos desportivos, além do plantio e da pecuária para abastecer as necessidades da comunidade. Esta comuna é auto-governada pelos prisioneiros, os quais foram escolhidos por um tal Comitê de Distribuição entre vários condenados em prisões comuns. E é interessante que ela pode ser deixada por livre espontânea vontade. Não há guardas para impedir isso.

O objetivo é reduzir ao máximo o encarceramento de criminosos. Além de torná-los mais produtivos. Até onde eu sei é um método utilizado apenas para crimes de pequena relevância. Crimes mais terríveis como assassinato e desvio de dinheiro público são normalmente punidos nos campos de trabalho de maior segurança. Locais onde os criminosos ajudam a produção agrícola ou a construção de ferrovias e vilas no interior da nação, entre outros trabalhos. É importante frisar que onde o trabalho é para todos, o problema é ficar sem trabalhar. Portanto a população em prisões comuns sempre foi pequena, já que lá as pessoas ficavam improdutivas, vivendo do trabalho alheio - coisa terrível para o socialismo.

Nos próximos post buscarei apresentar mais aspectos da vida soviética nos anos 30. Até lá.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Dia da Vitória é marcado por controvérsias em ex-repúblicas soviéticas

O Dia da Vitória, desde o fim da URSS, é marcado por manifestações de veteranos da "Grande Guerra Patriótica" e militantes comunistas em geral. Porém este ano, muitos foram mais longe do que simples manifestações. Alguns exigiram homenagens a Stálin nas ruas de Moscou e de outras cidades russas, outros pintaram um ônibus com uma enorme imagem do líder soviético e passearam pelas ruas de Leningrado (hoje, São Petersburgo) e ainda houve pessoas mais audaciosas, que literalmente erigiram um busto de Stálin na cidade ucraniana Zaporizhya. Os discursos do Presidente de Belarus, Aleksander Lukashenko, ainda colocaram mais lenha no fogo. Já que defendiam apaixonadamente a luta do povo soviético pela liberação da Europa do jugo Nazi-fascista e clamava pela luta contra a "revisão da História". Que no fundo é o que todos estes manifestantes estão fazendo. Lutando contra a versão ocidental, anti-comunista e anti-soviética da História de seus respectivos países.

As controvérsias foram enormes, principalmente entre os membros do governo da Rússia e da Ucrânia e entre as chamadas organizações pelos "direitos" humanos. Tudo porque, de acordo com a História oficial, tanto Stálin como o regime soviético em si foram responsáveis por milhões e milhões de mortes. O problema é que o que não falta são estudos desmistificando as lendas do "milhões de mortos" e dos "milhões de presos". Estudos feitos inclusive por acadêmicos anti-comunistas ao extremo, russos e americanos. No entanto o que está em jogo não é a verdade em si, mas sim a sustentação ideológica de um sistema opressor e decadente - o capitalismo.

Os direitos humanos - como o próprio nome sugere - estão mais para a direita do que para qualquer outra coisa. Defendem inescrupulosamente criminosos, espiões, sabotadores, assassinos, corruptos, mas o povo mendigando nas ruas de Moscou? Ah, estes são apenas vagabundos preguiçosos! Não preciso nem dizer que estas organizações recebem o apoio maciço dos governos e do capital privado. E juntos com a imprensa, fazem um estardalhaço contra os comunistas. Arranjam vitimazinhas velhinhas e deprimidas para falar o quanto sofreram por causa do socialismo, gritam aos quatro cantos do mundo as mesmas propagandas idiotas feitas durante a Guerra Fria - 100 milhões de mortos, 50 milhões de presos e blá blá blá. Porém eles se esquecem deliberadamente da maioria da população, a qual olha com nostalgia para os tempos soviéticos, a qual vê em Lênin e em Stálin seus verdadeiros líderes, a qual conheceu apenas miséria e exploração com o fim do socialismo.

Mas, enfim, não é nisso que a "democracia" capitalista é mestre? Fingir-se de justa, democrática, humana, porém coloca-se sempre ao lado do capital e contra a maioria do povo. E por outro lado, os bolcheviques orgulhavam-se fortemente de sua "ditadura" do proletariado, que opunha-se definitivamente ao capital e colocava-se junto ao povo, sempre procurando dar-lhe uma vida decente e justa.

Muitos podem não concordar com minhas opiniões, mas uma coisa acredito que fica claro para todos: o socialismo não morreu completamente e os velhos embates ideológicos da Guerra Fria estão voltando à medida que a paciência do povo com as "democracias" capitalistas vai se esgotando. E aí Fukuyama, cadê o "fim da História"?

Links para algumas notícias relacionadas:

*Presidente Lukashenko defende o papel da URSS na Segunda Grande Guerra: http://www.belta.by/en/main_news?id=528772 e http://www.belta.by/en/main_news?id=529136

*Stálin em destaque novamente na Rússia: http://english.aljazeera.net/news/europe/2010/05/20105814414630570.html

*Ônibus de Stálin circula por Leningrado (São Petersburgo): http://www.independ ent.co.uk/ travel/news- and-advice/ stalin-bus- hits-the- road-in-russias- saint-petersburg -1968627. html

*Monumento a Stálin erigido na Ucrânia: http://marxistleninist.wordpress.com/2010/05/06/new-stalin-monument-in-ukraine/#more-5579

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"Stalinismo" igual ao Nazismo?



Em meados do ano passado, mais uma pérola anti-comunista foi lançada pela União Européia. A OSCE (Organização para Segurança e Cooperação na Europa) tratou de igualar o chamado "Stalinismo" ao Nazismo, e não só isso criaram uma resolução que igualava os papéis da URSS e da Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra Mundial. O dia 23 de Agosto (O dia que foi assinado o Tratado de Não-Agressão Molotov-Ribbentrop) se tornaria então o dia para se lembrar das vítimas do "Stalinismo" e do Nazismo. Qualquer que saiba pelo menos um pouco de História deveria ficar horrorizado com este ato criminoso de propaganda. Até onde eu sei, os verdadeiros criminosos foram a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.

A primeira com seus tratadinhos de paz com os alemães que acabaram por entregar países inteiros para as mãos dos nazistas - Lembram-se do Tratado de Munique e da Tchecoslováquia? Provavelmente não. Pois o Ocidente adora apagá-los da memória. Advinhem o que a URSS fazia enquanto a Grã-Bretanha entregava a Europa de mão beijada a Hitler? Convocava incessantes encontros diplomáticos com França e Grã-Bretanha para se formar uma Aliança Anti-Fascista sólida, mas as "democracias" ocidentais não deram muita bola. Simplesmente adoravam demais a idéia de ver uma suástica tremulando no Kremlin, em vez de uma foice e um martelo.

E quanto aos Estados Unidos? Há dois pontos. Primeiro, seus bancos e grandes empresários basicamente financiaram Hitler e, segundo, seu isolacionismo covarde aponta para uma atitude parecida com a das potências européias. Deixe Hitler livrar o mundo do comunismo! Quem cala, consente.

Aí é que teve que entrar a astúcia da diplomacia soviética. Abandonada pelo resto do mundo e frente a frente com uma impiedosa e sanguinária máquina de guerra, a URSS aceitou o Tratado de Não-Agressão apresentado pela Alemanha Nazista. Já que em 1939 seria suicídio enfrentar a Wehrmacht sozinha. E vocês me perguntam então: Porque a Alemanha propôs este Tratado à URSS? Simples. Nesta mesma época, a URSS estava em negociações com a Grã-Bretanha e a França para firmar a Aliança Anti-Fascista. E desta vez realmente parecia que as coisas iam engrenar. Hitler preocupou-se - lutar em dois fronts seria a derrota alemã. Então ele mandou diplomatas para a URSS numa tentativa de salvaguardar seu front oriental. O problema é que as coisas só pareciam que iam para frente, pois a legação britânica enrolou várias semanas para chegar na URSS e quando chegou, revelou que não tinha poderes para formar uma Aliança Militar de verdade. Aquilo seria só um pré-acordo. Ora, um pré-acordo não ajudaria a URSS caso os panzers alemães invadissem suas fronteiras! A saída foi assinar o Tratado de Não-Agressão com a Alemanha, pois a legação alemã veio com poderes dados pelo próprio Führer para firmar um acordo decente. Um acordo que deu quase dois anos para as indústrias soviéticas montarem uma máquina de guerra que enfim derrotaria o nazismo.

Outro ponto interessante é o Nazismo era genocida. Temos o Holocausto e a Guerra de Extermínio contra a URSS como prova de massacres que dizimaram milhões e milhões de vidas humanas. E o "Stalinismo"? Primeiro que nem existe "Stalinismo". Quem é rotulado de "Stalinista" pelo Ocidente considerava-se Bolchevique, ou simplesmente Comunista. Segundo ponto, não há nenhuma evidência que aponte para a URSS como um Estado genocida. Vocês podem pesquisar os resultados da pesquisa de John Arch Getty sobre o sistema penal soviético após a abertura dos arquivos no início dos anos 90. Podem pesquisar os resultados das pesquisas de Robert Thurston, de Yuri Zhukov e de tantos outros gigantes da História. E simplesmente não vão encontrar nenhum pingo de genocídio. Encontrarão certamente uma faixa de 300.000 a 600.000 mortos pelo regime até 1953. Uma parte era de assassinos e outros tipos de criminosos não-políticos que foram sentenciados à morte por seus crimes. Outra parte era de criminosos políticos, entre eles kulaks que pegaram em armas para defender o regime de servidão e que queimaram plantações inteiras, destuíram tratores e mataram animais como atos de terrorismo contra o Estado soviético. Mas grande parte deste número é formada por pessoas executadas sem julgamento, portanto possivelmente inocentes. Que a justiça seja feita, não sou nenhum fanático. Então Paulo, estas são as vítimas do "Stalinismo"! Me desculpe, mas devo discordar.

Primeiro é preciso entender o contexto histórico soviético dos anos 30. A ascensão do fascimo e sua retórica militarista e anti-comunista aterrorizava cada um dos cidadãos soviéticos. Além disso, a luta entre burocratas do partido e leninistas se tornava cada vez mais encarniçada. O que seriam estas duas facções políticas? A primeira é herdeira da burocracia do Império Russo, são sujeitos de mentalidade retrógrada que não tem escrúpúlos quando o assunto é poder e riquezas. Um de seus mais conhecidos nomes no Ocidente é Nikita Sergueievich Khruschev. E hoje em dia, Vladimir Putin. Um verdadeiro herdeiro da burocracia soviética. A segunda é herdeira de Lênin, defensora do socialismo e do poder aos sovietes, são sujeitos muitas vezes humildes que defendem a igualdade a todos os custos. Sua figura mais proeminente é justamente Josef Vissarionovich Dzhugashivilli, o famoso Stálin.

Enquanto os burocratas tentavam centralizar cada vez mais o poder em suas mãos, Stálin tentava descentrálizá-lo nas mãos dos Sovietes. A briga torna-se mais feroz com o advento da nova Constituição Soviética. Stálin e seus companheiros criaram uma Constituição que minava o poder dos burocratas, apelando para eleições competitivas, secretas e diretas, além da completa separação do Estado e do Partido. O Partido passaria a ter apenas a função de propaganda, libertando assim, o Estado das mãos dos burocratas. As eleições acabariam por dizimar os últimos inimigos do povo, já que os leninistas é que detinham a aprovação da população. O problema é que estes artigos revolucionários foram recusados, já que a nomenklatura (outro nome para os burocratas) deteve maioria nos sovietes e no Birô Político do Partido. Stálin morreu lutando por isso, assim como Beria. E com eles o marxismo-leninismo foi enterrado de vez na União Soviética.

As conspirações de Tukacheviskii e dos direitistas tiveram grande papel nesta vitória da nomenklatura. Já que elas serviram como forte sustentáculo da burocracia soviética, que espertamente desviou a atenção da nação da Nova Constituição para o perigo extremo da Contra-Revolução. Além do que, isto tudo lhes deu pretexto para a repressão em massa em defesa da Pátria Mãe. Vários opositores da nomenklatura foram executados sumariamente - só Kruschev tem o peso de 80.000 vidas em suas costas - ou presos sem mais explicações. As troikas espalharam o terror pelo país, tudo por causa de um exagero enorme acerca das Conspirações anti-soviéticas da década de 30. Stálin, pressionado pelas troikas, acabou por assinar um documento que as apoiava. Yuri Zhukov, historiador chefe da Academia de Ciências de Moscou, diz que se ele não tivesse assinado, provavelmente seu nome estaria no Memorial das vítimas da Grande Repressão.

Portanto estas milhares de vítimas não são vítimas do "Stalinismo", mas sim da nomenklatura soviética. Tanto que Stálin fez questão de colocar Béria no poder, assim que o medo disseminado pelos burocratas veio abaixo e a situação se acalmou. Lavrentii Béria então normalizou o caos que se encontrava na nação. Levando o NKVD a fazer inúmeras investigações que acabaram por prender e executar Ezhov e Yagoda, além de outros membros do NKVD que prenderam e mataram ilegalmente. Além disso, centenas de milhares de pessoas foram libertas, após as investigações concluírem que não havia nada contra elas.



Logo, como igualar o Nazismo ao "Stalinismo"? Eram dois regimes antagônicos que se odiavam mais do que tudo neste mundo. Um era um regime racista, genocida e militarista. O outro levantava a bandeira do internacionalismo proletário e da luta contra a exploração do homem pelo homem. O fato é que a União Européia teme e teme muito o impacto que as idéias de Lênin e Stálin podem causar. Teme que o gigantesco desenvolvimento social, cultural e econômico da URSS em um espaço de 20 anos possa levar mais e mais pessoas a acreditar em uma alternativa ao capitalismo. Como aliás vem acontecendo na Rússia, na Ucrânia, na Hungria e em algumas outras ex-repúblicas socialistas. A força de manifestações comunistas nestes países é cada vez maior, como os aniversários da Revolução de Outubro e de Josef Stálin demonstraram ano passado, juntando centenas de milhares de pessoas em torno dos estandartes vermelhos que tanto aterrorizam as elites ocidentais.



Isso tudo não passa de lavagem cerebral discarada. Não duvido que as próximas resoluções virão criminalizar o Comunismo. Colocando-o novamente na clandestinidade. Forçando o ensino das próximas gerações a enfiar a ideologia liberal goela abaixo das crianças - mais ainda do que hoje em dia -, forçando o ensino a elevar propagandas puramente ideológicas ao status de "verdade absoluta e incontestável". Logo mais falar em Lênin, Stálin e URSS será como defender a tese do "Holoconto" e o Nazismo. Pessoas serão presas e reprimidas por isso.

Abaixo à criminalização do Comunismo! Abaixo à lavagem cerebral capitalista!

Glórias eternas à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas! E à verdadeira democracia popular!

Bibliografia: "Life and Terror in Stalin's Russia" de Robert Thurston, "Stalin and the Struggle for Democratic Reform" de Grover Furr, "Inoy Stalin" de Yuri Zhukov e "Victims of the Soviet Penal System in the Pre-War Years: A First Approach on the Basis of Archival Evidence" de John Arch Getty, Gabor T. Rittersporn e Viktor N. Zemskov.