terça-feira, 12 de outubro de 2010

União Soviética, 1932 (O dia-a-dia no país dos Sovietes) Parte II



Após falar um pouco de Moscou, Sir Newsholme começa a descrever suas impressões acerca de Leningrado. Todavia, ele apenas menciona as instituições voltadas à saúde pública, sem desenvolver muito mais do que isso. Ele direciona muitos elogios aos hospitais, clínicas, etc., afirmando que são bastante modernos e bem capacitados. E aí termina o primeiro capítulo do livro.

O segundo chama-se "De Moscou para a Geórgia e Criméia". Este capítulo basicamente narra a viagem do britânico em um barco através do Volga, viagem a qual ele visita uma série de cidades e de diferentes regiões soviéticas. De acordo com ele, o barco estava sempre lotado; entravam muitas pessoas e saíam bastante também a cada parada. A maior parte dos passageiros eram de camponeses pobres, cheios de caixas, frutas, animais. Muitas coisas as quais eles venderiam em algum centro urbano. A embarcação seguia tão lotada que muitos dormiam no convés mesmo. Ao que parece ela tinha quatro classes, reflexo de uma União Soviética ainda em desenvolvimento e ainda marcada pelas diferentes classes sociais: operários, camponeses pobres, kulaks, estratos médios (como funcionários da administração estatal), entre outras. A primeira e segunda classes ofereciam certo conforto, já a terceira ficava mais apertada enquanto que a quarta ficava no convés do navio mesmo.

Sir Newsholme segue descrevendo no capítulo suas visitas a várias cidades, sempre focando nas questões relativas à saúde. Da Geórgia à República dos Tártaros e à Ucrânia. Suas impressões são de que o desenvolvimento e a modernização estão chegando até nas menores e menos importantes partes da nação, não sendo Moscou e Leningrado lugares privilegiados por sua centralidade e importância. Todavia o que importa mesmo neste capítulo são alguns episódios que ocorreram dentro da embarcação. Como, por exemplo, a sabotagem terrorista ocorrida em uma ponte sobre o Volga.

Após o barco passar por Samara, ele aproximou-se de uma vila chamada Batraki, onde havia uma ponte ferroviária que atravessava o Volga. Uma ordem soou no barco para que todos buscassem abrigo. O britânico então revela que dois vãos da ponte haviam sido explodidos por terroristas. Os soviéticos disseram então que de tempos em tempos ainda haviam ataques contra-revolucionários. O que é algo revelador, já que normalmente se trata o perigo da contra-revolução como paranoia dos comunistas, o que de fato nunca foi. Pois os casos de sabotagem, assassinato de políticos importantes, espionagem, etc., eram muito comuns na URSS.

A viagem segue, e o britânico encontra um financista americano de Wall Street. Ele vinha visitando as novas indústrias que vinham sendo montadas na União Soviética e, nas palavras de Sir Newsholme, o americano estava tão impressionado com as indústrias soviéticas quanto ele próprio estava com o sistema de saúde pública. O que mais impressionou o americano foi a liberdade a qual os trabalhadores tinham em criticar os gestores das fábricas e seus companheiros de trabalho. Para o homem de Wall Street, o sucesso da experiência soviética dependeria em larga medida desta liberdade de crítica individual - opinião a qual eu também compartilho. Mas nem tudo eram glórias, o homem de negócios viu bastante ineficiência nas fábricas visitadas, porém completou que era do tipo que logo seria remediada.

Quanto a vida comum, Sir Newsholme continua batendo na tecla da felicidade das pessoas. Das cantorias, da hospitalidade, do calor humano e da importância da socialização das pessoas. No fim da primeira parte deste capítulo, ele fala um pouco sobre a vida noturna em Stalingrado. As pessoas pareciam se concentrar no Parque de Cultura e Descanso, participando de festivais de música, dança folk, entre outras coisas.

A próxima parte do capítulo se chama "Através do Cáucaso Setentrional". E o britânico basicamente fala sobre como ele ficara impressionado com o progresso daquela região. Para todos os lados ele via fazendas, plantações, tratores e máquinas novas; nas cidades, novos apartamentos e casas, escolas, hospitais, etc. O desenvolvimento vinha chegando rapidamente, se espalhando pelo país mesmo em regiões antes abandonadas e pouco importantes para o poder central. Sigo então para a próxima parte, "Geórgia Subtropical". Aqui Sir Newsholme fala mais sobre suas visitas a sovkhozes (Fazendas do Estado) e a kolkhozes (Fazendas de cooperativas).

Esta parte é bastante interessante, pois mostra a preocupação dos soviéticos em acabar com a velha oposição entre campo e cidade, a qual Marx e Engels viam como uma das grandes contradições do capitalismo. As fazendas, sejam cooperativas ou estatais, eram basicamente cidades rodeadas de gado e/ou plantações. Havia apartamentos e residências, escolas, hospitais, creches, enfim, tudo que cidades normalmente possuíam. Os trabalhadores viviam nas fazendas, assim como os administradores e gestores. Cada propriedade rural era um mini centro urbano.

Em uma destas fazendas, um enorme e bem administrado kolkhoze, que consistia da junção de 153 pequenas fazendas, ocorreu uma cena do dia-a-dia que achei bem interessante. Na visita de Sir Newsholme a uma creche do kolkhoze, ele foi acompanhado pelo Secretário do Partido Comunista da região da Geórgia. O britânico disse que ele era amado pelas crianças e que, quando entrou na sala onde elas se encontravam, as saudou com:

"Vocês estão prontos para o trabalho e a defesa?"

E os pequenos se levantaram e o saudaram, respondendo:

"Sempre prontos!"

Ao que parece era uma tradição no país, repetida por todos os lados. Sir Newsholme disse que vira por toda a nação cartazes com o lema de que cada cidadão soviético devia estar pronto para o trabalho e para a defesa.

Esta parte do capítulo termina com o britânico descrevendo as redondezas de Batum, que fica no Mar Negro. Ele disse que havia muitos palácios luxuosos que um dia pertenceram a nobres e a realeza russa, mas que agora eram hotéis voltados aos trabalhadores. Era hábitos dos trabalhadores soviéticos, durante suas férias, viajarem para esses antigos palácios para apreciarem a boa vida da falecida e opulenta classe dominante do Império. Boa parte dos custos da viagem eram pagos pelos sindicatos, cerca de 30%.

Daí chega-se a próxima parte do capítulo, "No Mar Negro". Nesta parte, Sir Newsholme conversa com uma série de pessoas proeminentes da União Soviética, falando desde a liberdade de imprensa até aspectos do trabalho. Ao discutir sobre a liberdade de imprensa, Sr. Minkow, um dos editores da Rádio Jornal do Trabalho, diz que há espaço para tudo que não seja "contra-revolucionário" ser publicado. Ou seja, não havia espaço para publicações anti-soviéticas e anti-comunistas. O britânico também conversou com a doutora Olga Borisowna Lepeschinskaya, professora de Histologia na Academia Comunista de Moscou. Ela fala sobre as "brigadas de choque", que eram utilizadas para aumentar a produtividade entre os trabalhadores. Elas consistiam de grupos de trabalhadores que competiam entre si para ver quem produzia mais, os mais produtivos obviamente eram premiados. Quem seria ou não premiado era tópico de discussão nos "encontros de produção" de todos os trabalhadores de determinado local. Esta lógica era aplicada nos mais variados ramos, inclusive no ramo científico e acadêmico o qual Olga fazia parte. Outro ponto discutido é o dos jornais de parede, presentes em todos os ambientes de trabalho. Newsholme não fala muito deles por agora, mas diz que eram instrumentos para as críticas individuais de cada trabalhador acerca de todo e qualquer problema que ocorresse no ambiente de trabalho.

No último ponto que julgo importante nesta parte, o britânico fala sobre o enorme e luxuoso palácio de Livadia, que antes pertencia ao próprio Czar. Após sua expropriação, foi transformado em resort de férias para os operários e camponeses mais produtivos. Certamente viver na residência de Imperadores por algumas semanas deveria ser uma experiência e tanto para trabalhadores comuns.

O capítulo acaba com "A Capital da Ucrânia", parte a qual o britânico fala sobre Kharkov. Basicamente se detém só nas questões de saúde pública e não fala nada muito interessante para mim. E aqui acaba as observações de maneira mais geral. No próximo artigo, procurarei falar especificamente sobre as condições das indústrias na União Soviética.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

União Soviética, 1932 (O dia-a-dia no país dos Sovietes) Parte I


Sala de espera de um hospital em Moscou

Em plena "ditadura stalinista", o britânico Sir Arthur Newsholme foi à União Soviética inspecionar o sistema de saúde soviético para escrever seu livro, intitulado "Red Medicine". Durante cerca de um mês e meio ele e sua equipe desbravaram o enorme território vermelho, anotando suas impressões. Newsholme era um médico renomado na Inglaterra, um dos pioneiros no estudo e na implantação de políticas de saúde pública no Ocidente. Não encontrei qualquer traço de simpatias ao comunismo em pequenas biografias que procurei na internet, muito menos em seus relatos. No entanto, ele me pareceu estranhamente honesto para um ocidental e seus comentários são muito sóbrios em relação à vida e ao regime soviético, sem jamais espalhar boatos sobre escravidão ou sobre a "maldade" de Stálin e de outros líderes comunistas. É uma das poucas pessoas ao longo do século XX que detém o mínimo de objetividade científica e não visa imputar sua visão de mundo aos leitores.

Sua pesquisa serviu como base para a criação de políticas de saúde pública mais eficientes no ocidente, principalmente na Grã-Bretanha, uma das "pequenas" dívidas que o capitalismo tem com o comunismo. Porém, não tenho a menor pretensão de falar em minúcias sobre a medicina soviética. O que me interessa na obra de Sir Newsholme são suas observações acerca da vida na URSS, numa época em que, de acordo com a História Oficial, os soviéticos viviam sob a mais terrível e implacável das ditaduras totalitárias.

Na terceira parte de "Red Medicine", intitulada "Moscow and Leningrad", Sir Newshome fala um pouco de suas impressões sobre Moscou primeiro e, depois, sobre Leningrado. Uma das coisas que mais chama a atenção é a felicidade e a esperança estampadas nas faces dos moscovitas, desde as crianças aos mais velhos. O britânico diz que para todos os lados da URSS ele ouvia as pessoas cantando e via-as sorrindo. Não havia aquela atmosfera cinzenta de medo e terror tanto pregada por aí, o que corrobora com os estudos do historiador Robert Thurston em sua obra "Life and Terror in Stalin's Russia". Não havia aquele clima de paranóia e intrigas entre a população, clima supostamente criado pela perseguição violenta da polícia política soviética contra qualquer pessoa que discordasse minimamente do sistema soviético.

Ele segue falando sobre como a cidade era extremamente movimentada e como a população vinha crescendo de maneira espantosa nos últimos anos. Resultado disso foi um grande problema de habitação. Ele diz que apesar dos enormes blocos novos de apartamento que vinham sendo construídos, muitas famílias ainda tinham que viver juntas e apertadas, além de haver na cidade uma série de dormitórios públicos para abrigar os desabrigados. Além disso, era visível um "boom" no setor de construções, com novas fábricas, clubes para trabalhadores, parques de lazer, escolas, prédios comerciais, entre outras coisas.

Outro ponto interessantíssimo que é abordado é o fato de que a fome era discutida abertamente pela população, o que mostra que o governo soviético não escondia seus podres do povo como é normalmente dito por aí. Mas que fome seria essa? O próprio Newsholme explica, demonstrando um conhecimento profundo acerca da União Soviética de sua época, algo extremamente incomum para um ocidental. Ele diz que a URSS parecia não ter se recuperado ainda da destruição dos meios de produção agrícolas (basicamente cavalos, gados na época) promovidas pelos kulaks durante a coletivização de terras. Estima-se que a resistência desta última classe czarista russa tenha resultado em uma destruição de cerca de 50% dos meios de produção agrícola, sem contar que no início dos anos 30, a URSS passou pela pior seca dos últimos tempos. Esta combinação de fatores resultou em um triste e terrível período de fome, mas que, felizmente, foi contornado em cerca de dois anos.

Sir Newsholme descreve filas para se conseguir comida em açougues e outras lojas de alimentos. Ele disse que o que mais faltava era carne boa e leite. Então ele fala sobre grandes cozinhas comunais pela cidade, onde a refeição era vendida por 60 kopecks (ou cerca de 30 centavos de dólar), e sobre as refeições que eram oferecidas nas fábricas também. Duas interessantes formas de combate à fome.

Um dos pontos mais importantes para o dia-a-dia dos soviéticos era o Parque de Cultura e Descanso. Onde as pessoas se reuniam para o lazer e para estreitar suas relações pessoais. Havia de tudo por lá, danças folclóricas e populares, cantorias, jogos e brincadeiras para crianças, natação, remo, etc. O britânico informa também que, de acordo com a filosofia soviética, parques como este eram importantes para demonstrar o valor de atividades de socialização.

Outra situação que bate de frente contra o paradigma totalitário é o filme visto por Sir Newsholme em um cinema soviético, intitulado "A Estrada para a Vida". Baseado nos príncipios do Realismo Socialista, o filme é sobre problemas da realidade soviética, mostrando-a nua e crua, sem censuras. O normal de um governo totalitário é esconder seus podres, filmes como este deveriam ser prontamente proibidos por um governo que visa mostrar que seu país é um paraíso, já que ele aborda o problema da criminalidade juvenil. O filme dramatiza a necessidade da educação de qualidade para crianças de rua para prevenir que elas se tornem criminosas. Sim, havia crianças de rua e mendigos nesta época na URSS, apesar de que Sir Newsholme disse que era em bem menor quantidade que na Europa em geral. Agora imaginem um filme de Joseph Goebbels e Leni Riefenstahl acerca de um problema tão contrangedor para um governo como este. Seria possível? Jamais o Ministério da Propaganda nazista permitiria que algo assim fosse produzido.

A vida soviética era marcada também pela grande presença de eventos culturais. Teatros e óperas eram tomados por pessoas. Operários e camponeses lotavam lugares que no ocidente eram tomados apenas por nobres e burgueses. E Sir Newsholme descreve como os soviéticos apreciavam bastante tais espetáculos. Isto reflete a educação e a cultura cada vez mais elevadas das massas soviéticas que, há apenas duas décadas atrás viviam no obscurantismo, na miséria e na completa ignorância.

Neste primeiro relato de impressões sobre Moscou, Sir Newsholme trata de uma última questão que julgo de grande importância: o tratamento de criminosos. Ele visita uma comuna de trabalho para reabilitação de prisioneiros chamada Bolshevo, a cerca de 50 quilômetros de Moscou. Ela foi construída para pessoas que cometeram pequenos crimes como roubo e incêndio culposo. Havia cerca de 2.200 pessoas vivendo nesta "prisão". O interessante é que as famílias dos criminosos vão para lá também e o local é como uma pequena vila. Tem escola, hospital, clínica, loja de cooperativas e apartamentos de habitação. Os criminosos trabalham na criação de artigos desportivos, além do plantio e da pecuária para abastecer as necessidades da comunidade. Esta comuna é auto-governada pelos prisioneiros, os quais foram escolhidos por um tal Comitê de Distribuição entre vários condenados em prisões comuns. E é interessante que ela pode ser deixada por livre espontânea vontade. Não há guardas para impedir isso.

O objetivo é reduzir ao máximo o encarceramento de criminosos. Além de torná-los mais produtivos. Até onde eu sei é um método utilizado apenas para crimes de pequena relevância. Crimes mais terríveis como assassinato e desvio de dinheiro público são normalmente punidos nos campos de trabalho de maior segurança. Locais onde os criminosos ajudam a produção agrícola ou a construção de ferrovias e vilas no interior da nação, entre outros trabalhos. É importante frisar que onde o trabalho é para todos, o problema é ficar sem trabalhar. Portanto a população em prisões comuns sempre foi pequena, já que lá as pessoas ficavam improdutivas, vivendo do trabalho alheio - coisa terrível para o socialismo.

Nos próximos post buscarei apresentar mais aspectos da vida soviética nos anos 30. Até lá.

Lá e de volta outra vez

Ando meio sem tempo para fazer as traduções acerca das notícias das falsificações nos arquivos russos, aliás, por uma série de motivos fiquei sem tempo para postar qualquer coisa por aqui. Mas agora estou aqui e farei alguns comentários sobre acontecimentos recentes na Rússia. (Tudo pode ser acompanhado no blog que já citei aqui: mythcracker)

De Julho para cá, o parlamentar Viktor Ilyukhin trouxe mais publicidade ao caso das falsificações. Primeiro, indo a um programa de televisão mostrar alguns dos documentos forjados e responder à perguntas e dúvidas sobre o caso. Segundo, mandando uma carta, agora em setembro, para o primeiro-ministro Vladimir Putin informando os recentes acontecimentos ao líder russo e pedindo que alguma ação fosse tomada. Mas a publicação mais importante foi, sem dúvida, o artigo acerca dos 49 sinais de falsificação encontrados nos documentos. Neste artigo, apresenta-se análises aprofundadas de documentações da época soviética com suspeita de falsificação. Conclui-se o estudo apontando 49 sinais de falsificação, 49! Dentre eles erros grotescos como errar o nome do Partido e erros mais sutis, como diferenças entre as máquinas de escrever e os papéis utilizados.

Este é, sem dúvida, um dos mais importantes acontecimentos da história contemporânea. Um passo adiante em busca da verdade acerca da União Soviética, um passo adiante na tarefa de demolição de mitos propagandísticos e na construção de uma história soviética mais honesta. Tenho certeza que o século XXI será o berço de um novo entendimento acerca do movimento comunista internacional e da destruição dos paradigmas extremamente superficiais e preconceituosos que ainda reinam neste riquíssimo campo historiográfico.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O mito do igualitarismo marxista

Me impressiono cada vez mais com as pessoas. Elas adoram opinar sobre tudo, e mais ainda, opinar sobre assuntos que não dominam nem o básico. O pior disso tudo é quando essas opiniões passam a ser compartilhadas por milhões, até bilhões de outras pessoas, até que o que era apenas uma idéia incorreta torna-se subitamente a mais pura verdade. Há muitas pessoas - ditos intelectuais até - que baseiam suas idéias política em um erro grotesco do que seria o socialismo marxista. Defendem o capitalismo porque supostamente o socialismo busca a homogeneidade, o igualitarismo em sua forma mais simples e "pura". Ou seja, para eles, o marxismo seria uma espécie de ditadura que impõe uma roupa igual a todos, casas iguais, produtos iguais, enfim, tudo igual mesmo, inclusive os salários. Daí ocorre uma supressão do individual em prol de uma coletividade homogênea. Surge então uma sociedade estagnada, nada criativa e bastante opressiva.

Agora eu me pergunto, de onde foi que tiraram isso? Dos escritos de Marx e Engels que não foi, já que nem na obra mais básica de todas, "O Manifesto do Partido Comunista", não há nada disso. Inclusive, eles dizem que no socialismo as pessoas devem ser remuneradas de acordo com sua habilidade e produtividade. Bom, nas experiências históricas também não. Já que os bolcheviques jamais igualaram salários de ninguém, um cientista de grande importância ganhava bem mais que um jardineiro mediano, assim como um operário como Stakhanov ganhava muito mais do que um diretor de fábrica mediano. É importante agora frisar uma idéia básica do marxismo: a igualdade, é a igualdade de classe. Ou seja, deve-se abolir a diferenciação entre donos dos meios de produção e trabalhadores que vendem sua força de trabalho. Em outras palavras, deve-se abolir as classes sociais pra que todos REALMENTE possam ter direitos iguais.

Não é hipócrisia socialista o fato de uma pessoa extremamente produtiva ser herói da nação e viver em um apartamento maior e mais bem localizado que um trabalhador que apenas cumpre suas metas. Não é crime uma pessoa querer buscar algo mais que as outras, querer inovar, querer revolucionar, querer crescer profissionalmente. Não é crime ganhar um salário maior que o outro, ter notas maiores que os outros, não é crime destacar-se na sociedade - senão Lênin seria o primeiro a ser condenado na URSS. A diferença básica entre os sistemas reside em alguns pontos listados a seguir:

*É crime ter direito a uma escola muito melhor que a dos outros;
*É crime ter acesso a um sistema de saúde mais eficiente que o dos outros;
*É crime ter privilégios sobre os outros por uma simples questão de nascimento - questão de classe;
*É crime explorar a força de trabalho alheia para seu próprio enriquecimento;
*É crime enriquecer sem prestar a devida conta à sociedade - ou seja, sem ser produtivo;

Isto é uma simplificação, obviamente há tantas outras diferenças, mas o ponto é demolir este mito do igualiarismo marxista. O marxismo reconhece a importância do indivíduo, sempre reconheceu, porém este indivíduo não deve esquecer que pertence a uma sociedade e que há outros indíviduos que merecem seu respeito. Somos um ser social. E dependemos da coletividade para sobreviver. É inadimissível a exploração do homem pelo homem, é inadimissível o privilégio que os meios de produção oferecem aos capitalistas, é inadimíssivel que se considere iguais em direitos e deveres, pessoas que não nasceram e não usufruem das mesmas condições. Como um favelado pode ser igualado em direitos com um magnata da imprensa? Ele não tem acesso a nada, passa fome, freqüenta escolas caindo aos pedaços, isto quando não leva tiro da polícia e morre aos 20 anos. É muito fácil falar, plim! Vocês são iguais. Mas há realmente base para a igualdade de direitos dentro do regime capitalista? Ele não mantém os mesmos privilégios de classe que, por exemplo, a sociedade feudal? É apenas um pouco mais maquiado e um pouco mais aberto para a ascensão de classes, mas isto não o torna democrático.

Quando se abole as classes, quando se provide educação de qualidade e de graça, além de um ambiente saudável e pouco violento a toda uma população, você elimina a problemática dos privilégios quase que por inteira. Aí sim é possível ter igualdade de direitos e democracia. A burguesia revolucionou o mundo com sua lógica, deu os primeiros passos de uma sociedade democrática, mas esta revolução já tornou-se obsoleta, reacionária. É necessário a superação do capitalismo para que a igualdade, a fraternidade e a libedade venham realmente entrar em cena à toda a população humana, e não a uma minoria privilegiada.

É completamente errado apelar a este espírito igualitarista do marxismo para atacá-lo, demonizá-lo. É preciso analisar melhor o que se passou na União Soviética marxista-leninista (já que na revisionista foi bem diferente e, neste sentido devo dizer que talvez a base de toda essa déia resida no revisionismo soviético, já que aí sim, havia uma busca pela igualdade indistinta de salários) antes de sair esboçando críticas pouco concretas e por demais idealistas, ou melhor, ideológicas. A própria idéia leninista, que coloca um Partido como vanguarda classe operária rejeita esta homogeneidade social. É uma idéia simples de que os mais capazes, que os dotados de mais recursos, devem guiar os desamparados à vitória contra seus opressores, caso contrário, dificilmente sairiam da situação de explorados e alienados. Isto supõe uma diferenciação entre os indivíduos, mas esta diferenciação não justifica a dominação, pois ela é, em muitos sentidos, fruto desta dominação. Porque um operário não teria a mesma capacidade de Lênin? Pois Lênin teve acesso a tudo que havia de mais evoluído na sociedade da época, enquanto o operário mal fora alfabetizado, além de viver na penúria, na fome, na violência.

Ao contrário do que aquele e-mail direitista que rola na internet, a sociedade não dá as mesmas condições às pessoas do mesmo jeito que uma universidade em particular dá aos seus alunos (de uma maneira ideal, excluindo qualquer diferença de classe, qualquer manifestação de preconceito, qualquer problema individual). O aluno A e o aluno B receberam a mesma bibliografia do professor, têm o mesmo professor, ficam na mesma sala de aula, têm a mesma biblioteca para poder estudar, entre outras coisas. Mas o A tirou 5 e o B tirou 10 na prova. E aí? Isto prova que indivíduos são diferentes. Mas e se, nessa universidade, o estudante B tivesse acesso a um professor melhor, a livros melhores, a ambientes melhores, que o estudante A? Será que a nota do B não seria inluenciada por seus privilégios? Será que o estudante A não está sendo injustiçado?

Enfim, esta idéia das notas é bem tosca e cheia de furos, além de bastante simplista. Tentei usá-la apenas para fins didáticos. O fato é que um comunista marxista jamais pensou em igualar todo mundo e transformar a sociedade em algo homogêneo. A idéia é igualar as oportunidades, é igualar em direitos, é abolir este privilégio ambulante chamado de classe social, é a justiça social plena. Em que cada um seja remunerado por sua contribuição social, sua produtividade, sua habilidade. E que as pessoas sejam vistas como pessoas mesmo, e não como mercadorias e simples objetos que devem ser usados para se enriquecer, para se buscar a fama e para satisfazer a ganância e o ego.

O mito do igualitarismo marxista não passa disto, de um mito. A igualdade é a igualdade de classes. Sem classes, sem privilégios. Sem privilégios, surge a verdadeira democracia.

*Nota de complemento: Com este post, não quero dizer que havia ricos e pobres na URSS bolchevique - como pode ser interpretado quando eu falei que trabalhadores destacados receberiam mais do que os que apenas cumpriam as metas. A diferença nunca chegava a ser avassaladora como nos regimes capitalistas. Um revolucionário da produção industrial como Stakhanov - sempre uso seu exemplo, pois ele se tornou o "trabalhador modelo" de sua época - receberia aumentos salariais, incentivos materiais, mas ele não ganharia milhões de rublos. Talvez poderia alcançar uma diferença de 3, 4 vezes o salário mediano, jamais 100 vez - e acima até - como ocorre no desigual capitalismo. Até porque o maior incentivo aos trabalhadores vinha da Emulação Socialista, e não de incentivos puramente materiais - o que muda bastante com a vitória do revisionismo kruschovista.

Vale ressaltar que a Emulação Socialista não é puramente bobeira ideológica do regime, ela teve papel fundamental no crescimento gigantesco da URSS dos anos 30, 40 e 50. Inclusive, o Museu da Emulação Socialista de Moscou passou a receber cada vez mais visitas de empresários capitalistas em busca de alternativas para o aumento da produção de suas empresas, alternativas que não apelassem ao puro e simples aumento do estímulo material. Os maiores freqüentadores do Museu foram japoneses, que logo conheceriam seu "boom" econômico.

Recomendo a todos a entrevista com o ex-Comissário do Povo para a Agricultura, Ivan Aleksandrovich Benediktov - disponível em português no site "Para a História do Socialismo" http://hist-socialismo.blogs.sapo.pt/ - a qual ele explica um pouco da diferença das políticas trabalhistas bolcheviques para as políticas trabalhistas do revisionismo kruschovista. Além de salientar a forte presença japonesa nos salões do Museu da Emulação Socialista de Moscou.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Fonte de informações sobre Katyn

Acabei de descobrir que o sueco Holmström tem um blog (CORREÇÃO, viajei ao colocar "colegas" dele.. hahaahaha) - em língua inglesa - que possui as informações que passei aqui e muito mais! Lá há fotos dos documentos, videos de entrevista com Viktor Ilyukhin, entre outras coisas. Vou procurar traduzir ao português tudo que eu puder, para que estas informações importantíssimas possam circular em nossa língua também, já que, se depender de nossa querida mídia - discípula de Goebbels - essas informações jamais passarão adiante em terras tupiniquins.

Aqui o link do blog: http://mythcracker.wordpress.com/

Peço a todos os camaradas que visitarem aqui o mamayev kurgan que procurem divulgar o máximo possível estas informações, pois elas têm um impacto gigantesco em toda a escrita da história contemporânea. Já que pode representar o começo do fim de um dos paradigmas reinantes da história do século XX - o nefasto paradigma totalitário que guiou cegamente boa parte das ciências sociais, históricas e econômicas até os dias atuais.

Urgente: Suspeita de falsificações em massa nos arquivos soviéticos!

O mês passado foi marcado por confusões e controvérsias na Rússia. Após Viktor Ilyukhin, parlamentar da Duma russa, revelar uma série de sinistras falsificações nos arquivos da Federação Russa relacionados aos tempos soviéticos. Não há nada certo ainda, mas o membro do PCFR (Partido Comunista da Federação Russa) exigiu sérias investigações parlmentares sobre o assunto. Relatarei a seguir, as informações que recebi do pesquisador sueco, Sven-Eric Holmström, que vem acompanhado a situação da Rússia através de colegas seus dedicados ao caso de Katyn. Sinto dizer que não consegui traduzir muito bem, muito em função da pressa para espalhar a notícia. Portanto creio que o texto ficou bem confuso e meio estranho de ler, porém dá para captar sua essência.

Katyn 28 de Maio – 18 Junho

Parte I

Em 20 de Maio de 2010, uma pessoa anônima ligou para o membro da Duma Russa, Viktor Ilyukhin, e disse que tinha algumas coisas a dizer com relação às execuções de oficiais poloneses em Katyn. Ilyukhin conheceu esta pessoa no mesmo dia e, durante o encontro, ele revelou seu nome e disse que estava diretamente envolvido com falsificações de documentos do arquivo russo, incluindo documentos relacionados à Katyn. Entre outras coisas, a “Carta de Béria No. 794/B” e a “Carta de Shelepin” de 1959, foram falsificadas por ele e seu grupo.

Este grupo foi especialmente formado durante os tempos de Yeltsin, trabalhando no começo dos anos 90 em uma vila chamada Nagornoye (eles ficaram em uma dacha que havia sido usada anteriormente por membros do Comitê Central do Partido Comunista). O grupo fora bem pago e provido com vários tipos de produtos. Eles tinham à disposição um conjunto de velhos carimbos e fôrmas soviéticas.

O informante anônimo (o nome não é revelado neste momento por questões de segurança) disse como as falsificações foram feitas. Eles falsificaram até as assinaturas de antigos líderes soviéticos. Também falsificaram o ato de abdicação de Nicolau II. Este grupo trabalhou até 1996, quando eles foram movidos de Nagornoye para a vila de Zaretye.

Pessoas envolvidas neste grupo eram o Coronel Klimov (o qual esteve diretamente envolvido com a falsificação da “Carta de Shelepin”), o chefe do arquivo Russo Rudolf Pichoya, o colaborador mais próximo de Yeltsin M. Poltoranin, e o chefe da segurança do presidente russo G. Rogozin. Rudolf Pichoya era, aliás, o indivíduo que, sob as ordens de Yeltsin, entregou documentos do “pacote fechado no. 1” (a chamada pasta de Katyn) a Lech Walesa em Varsóvia, no dia 14 de Outubro de 1992.

O informante também disse que até onde ele sabe, até empregados do 6º Instituto do Estado-Maior Russo (com Molchanov como chefe) trabalhavam de maneira similar.

De acordo com as informações, centenas de documentos relacionados a importantes momentos da história soviética foram falsificados. Eles também distorceram o conteúdo de outros documentos. Para apoiar suas alegações ele apresentou uma série de fôrmas dos anos 40, carimbos falsos, marcas de carimbo em papel, entre outras coisas. Ele prometeu entregar mais materiais.

Viktor Ilyukhin mandou duas cartas (26 e 28 de Maio) sobre isso ao líder do PCFR (Partido Comunista da Federação Russa), Gennadiy Zyuganov, com um pedido para continuar as investigações e clamando pela participação de mais cientistas e acadêmicos neste assunto.

Parte II

Em 3 de Junho de 2010, um video foi lançado de Viktor Ilyukhin revelando oralmente o que ocorrera.

No vídeo ele menciona as últimas informações as quais recebera do informante anônimo. Ele mostra algumas fôrmas vazias (entre outras, uma parecida com a que foi feita para a “transcrição de Béria”), ele mostra todos os carimbos que de acordo com as informações, são falsos.

Ilyukhin também fala sobre o documento de 202 páginas que contém correspondências de Stálin e relatórios para ele de 1941. O objetivo desta farsa em particular era inserir o máximo de informação possível nos documentos, para que mostrasse que a inteligência soviética sabia perfeitamente da guerra que se aproximava já na primavera de 1941, e que Stálin fora avisado e mesmo assim ignorou todos os avisos.

O informante disse que ele não conseguia mais acompanhar com calma os eventos que as falsificações causaram. Ele também disse que toda vez que mencionavam os documentos os quais seu grupo havia formado, sentia uma reação irônica. O homem também disse que fora ele que falsificara a assinatura de Béria na “Carta de Béria no. 794/B”. Ao mesmo tempo, as assinaturas de Stálin, Voroshilov, Molotov e Mikoyan foram postas na mesma carta.

O homem disse que o Coronel Klimov fora o único responsável pela “Carta de Shelepin” para Kruschev “de 1959”. Não deverá ser difícil comparar esta carta com outras que Klimov escreveu, para assim comparar sua letra e fazer um estudo técnico acerca dela. De acordo com o vídeo, algumas ordens de falsificação vieram diretamente do chefe do arquivo, Rudolf Pichoya. Todos os documentos falsificados são relacionados às décadas de 30 e 40, i.e. apenas a época soviética.

No vídeo foi dito que os falsificadores trabalharam na vila de Nagornoye entre 1991 e 1996, depois mudaram para um local não muito distante dali. O informante não exclui a possibilidade do grupo ainda estar na ativa. Este grupo produziu centenas de milhares de páginas de documentos falsificados que foram postos em circulação.

Ilyukhin termina o vídeo afirmando: “Não há mais qualquer credibilidade restante para os arquivos russos”.

Parte III

Em 16 de Junho de 2010, Ilyukhin levou à Duma estas novas revelações.

Ele disse que o PCFR tem informações acerca de tamanhas fabricações que estas devem ser completamente controladas por uma investigação parlamentar. O propósito destas falsificações feitas durante os anos 90 deve ter sido o de igualar o Stalinismo ao fascismo.

Ilyukhin repetiu a informação de que pessoas do 6º departamento de Estado-Maior das forças armadas também estavam envolvidas em atividades de falsificação. A atividade deste grupo coincidiu com a desclassificação de documentos do Politburo e do Comitê Cental do Partido Comunista por uma comissão de governo liderada por Mikhail Poltoranin.

Eles chegaram a conclusão de que o chamado “Testamento” de Lênin é forjado. Entre outras falsificações estão os documentos relacionados à abdicação de Nicolau II e à suposta participação de Stálin como agente da polícia secreta do Tzar (ochrana).

Ilyukhin disse que agora é possível constatar que a “Carta de Béria” de 5 de Março de 1940 é falsificada. Ele mostrou a opinião de um especialista. Também a transcrição da decisão do Politburo, a qual é concedida a permissão para a execução dos poloneses, é fabricada. Ele também apresenta a opinião de um especialista sobre o documento da dita cooperação entre o NKVD e a Gestapo, a conclusão é que também é uma farsa. Ilyukhin demonstrou grandes preocupações por esta situação de que muitos documentos haviam sido forjados, já que dá uma imagem errada aos estudiosos de eventos que aconteceram há pouco tempo “em nossa história”, como ele colocou.

Ele disse que provavelmente ele teria se restringido a fazer comentários sobre falsificações em larga escala, se isto não fosse apoiado pelo fato de que Dimitry Volkogonov entregou centenas de documentos ultra-secretos à Biblioteca do Congresso dos EUA nos anos 90. Os documentos do arquivo russo estão “certamente vagando livremente por toda a Europa”, como Ilyukhin disse.

Ele mencionou os falsos carimbos que ele tem em sua posse, incluindo carimbos das assinaturas de Béria e Stálin, e que há fôrmas vazias dos anos 30 e 40 as quais foram utilizadas para fazer tais documentos.

Ele também mencionou o “caso especial no. 29” de 1941. Alguns destes documentos foram legalizados, infelizmente, ele diz. A pasta contém inscrições: “arquivado para sempre” e “não sujeito à desclassificação”, no entanto estes documentos estão fora do arquivo.

Recentemente Sergey Mironenko, gerente no Arquivo do Estado Russo, disse que estas coisas jamais poderiam ter acontecido e que Ilyukhin estava espalhando pura fantasia. Ilyukhin disse que está preparado para resignar da Duma se Mironenko puder provar que estes documentos nada têm a ver com os eventos das décadas de 30 e 40. Se Mironenko falhar, deverá largar seu posto.

Ilyukhin defende a questão acerca da necessidade de se conduzir uma nova investigação parlamentar sobre o massacre de prisioneiros de guerra poloneses em Kozi Gory e sobre a falsificação de outros documentos históricos.

No futuro próximo, ele sugerirá uma mudança legislativa na Rússia, a qual considerará um crime a falsificação de documentos de grande importância histórica.

Ilyukhin diz que é errado achar que isto tudo tem a ver com passado. Tem tudo a ver com o nosso tempo presente, ele conclui.

Parte IV

O PCFR realizou uma conferência de imprensa sobre este assunto em 18 de Junho de 2010.

Yuri Mukhin relata sobre a conferência em sua página na internet. Ele disse que a maioria das pessoas ali reunidas estavam interessadas em saber quem havia contatado Viktor Ilyukhin e confessado. Ilyukhin explicou que esta pessoa está correndo grande perigo. Mukhin conversou brevemente com Ilyukhin depois da conferência, quando Ilyukhin estava a caminho de outro lugar. Ele chegou às conclusões que seguem:

A pessoa anônima realmente teme por sua vida e está se escondendo por causa disso.
Ela não é nenhum lunático, mas sim uma verdadeira especialista em falsificações. Mukhin não pode dizer neste momento o que confirma esta afirmação, mas no tempo certo o povo saberá.
O motivo dela é a dor de ver o que vem ocorrendo ultimamente em seu país. É um motivo pessoal que pode ser compreendido por uma perspectiva humanista. Quando ela for mais bem conhecida, as pessoas eventualmente entenderão seus motivos.

Antes de Ilyukhin ir embora, ele ainda disse que esta pessoa anônima não foi a única que confessou, mas na pressa, Mukhin não teve tempo de pegar uma explicação sobre isto.

Na conferência de imprensa havia representantes da mídia polonesa e de pessoas do “Memorial” russo. Um jornalista polonês tentou argumentar contra Ilyukhin dizendo que a execução dos oficiais poloneses é confirmada pelas escavações em Kharkov e Mednoe. Ilyukhin respondeu que na URSS apenas “criminosos poloneses” foram executados. Mukhin, no entanto, acha este argumento um tanto ao quanto inadequado. A resposta deveria ter sido que um tribunal não teria uso nenhum para conclusões de alguns escavadores desenvolvidas durante uma comissão desprovida de provas concretas.

Por exemplo, Mukhin diz que eles deveriam explicar porque entre os 162 crânios encontrados em Kharkov, apenas 62 buracos de bala foram encontrados. Enquanto que os mortos em Katyn, em sua maioria, apresentavam buracos de bala. Em Mednoe, 226 “poloneses” mortos foram encontrados, mas apenas 20 tinham buracos de bala.

A exumação faz parte do processo judicial; tudo encontrado deve ser devidamente documentado, descrito, fotografado e coletado. Todas as provas devem então ser empacotadas, protegidas contra a destruição e preservadas até que possam ser apresentadas em tribunal, o qual então deverá decidir o caso.

Nikita Petrov do Memorial russo, tentou representar o caso inteiro como relatando-se a “um falsificador amador que fez algum dinheiro com suas fabricações, mas que não tem nada a ver com os documentos de Katyn.”.

Mukhin argumenta contra esta posição. Ele diz que apenas um indivíduo jamais pode fazer falsificações tão avançadas como são as deste caso. Mukhin diz que antes que você possa vender algo, primeiro tem que comprar. Entre outras coisas, os falsos carimbos devem ser pagos. O papel genuíno antigo dos anos 30 e 40 deve ser adquirido (com composições e texturas específicas). Então há o trabalho de colocar todos estes documentos e pequenas notificações aqui e ali, o que consome bastante tempo.

Além disso, máquinas de escrever daquele período devem ser adquiridas (por exemplo, do escritório de Béria). Isto é algo que não é feito sem consideráveis problemas. Para fazer isto você deve encontrar documentos no arquivo da KGB sobre entregas de máquinas de escrever, depois descobrir qual tipo de máquina foi entregue aos escritórios de Béria, para então ir a uma loja de antiguidades para encontrar aquele tipo específico de máquina.

E finalmente, você está gastando muito tempo e dinheiro para produzir, por exemplo, a “Carta de Stálin ao Estado-Maior do Exército Vermelho”, mas então você deve vender o documento. Mas para quem? Todos entenderão que o documento é roubado, mesmo que não seja falso. Os estudiosos estão interessados no texto do documento, e nunca pagariam grandes quantias de dinheiro por documentos. É mais conveniente, e também sem maiores gastos, colocar os documentos diretamente nos arquivos. Porque alguém compraria um documento falso, para então cometer também um crime?

De acordo com Ilyukhin, eles têm medo pela vida da vítima. “A testemunha será apresentada à investigação, caso esta seja conduzida nos mais altos níveis governamentais”, disse Ilyukhin.

Ilyukhin também disse que “os participantes do grupo de investigação independente também estão sujeitos à pressão, portanto é sugerido que eles oficialmente retirem seus depoimentos”.

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Continuem acompanhando o blog para novas notícias acerca das falsificações.

terça-feira, 13 de julho de 2010

FARC: O outro lado da história


Em Cauca, a Colômbia ainda está em guerra. Você encontra trincheiras em todos os cantos, tanques, helicópteros Blackhawk e muitos soldados. Combates ocorrem aqui quase todo dia e as pessoas já se acostumaram a isso. Mais que isso, elas têm certeza de que no dia da eleição haverá ataques.

Porém, mesmo com toda a presença militar, nós conseguimos encontrar os rebeldes de esquerda das FARC, que ainda lutam contra o governo colombiano. Nós seguimos até a cidade de Toribio, que fica no meio das montanhas. Foi aí que vimos eles. Estavam se preparando para atacar os militares. Estavam carregando RPG's e Ak-47. Eles vinham das montanhas, dos canais de esgoto, de todos os lados. Eles disseram que um combate contra os militares estava por vir.

Mais tarde, vimos eles de novo. Eles formaram um bloqueio na estrada. Centenas de veículos ficaram parados por horas a fio. O Comandante Duber era o homem no comando - ele nos deu uma entrevista exclusiva na véspera das eleições presidenciais da Colômbia.

"Nosso inimigo principal é o presidente Uribe e as forças armadas. Nós queremos dizer ao povo que ainda estamos vivos, ainda estamos fortes. Há eleições na Colômbia. As pessoas podem votar em quem elas quiserem. Mas nós vamos continuar lutando. A ideologia das FARC é vencer ou morrer, isto é o que Che Guevara disse.", Duber disse a nós.

Desde que o presidente Alvaro Uribe chegou ao poder ele tem lutado contra os rebeldes de esquerda - que são a organização guerrilheira mais velha da América do Sul. Ele expulsou-os das principais cidades, mas em Cauca a luta ainda continua.

"Presidente Uribe oferece dinheiro [e] carros para aqueles guerrilheiros que se entregarem. Estes que se entregam não são guerrilheiros de verdade. Eles deviam dar este dinheiro para aqueles que ainda passam fome neste país. Nós não precisamos dele."



O Comandante Duber juntou-se à organização quando tinha 16 anos de idade. Ele disse que tem orgulho de ter sobrevivido à presidência de Alvaro Uribe.

"Uma nova Colômbia é um lugar onde os pobres têm trabalho, igualdade social, sistema de saúde e educação de graça. Não é como agora; não há igualdade aqui. Não há saúde, nem educação para os pobres - apenas para os ricos.", ele disse.

O governo acusa as FARC de tráfico de drogas. De fato, algumas áreas onde a folha de Coca cresce são controladas por eles.

"As pessoas aqui nos ajudam, nós recebemos ajuda dos países vizinhos. Você não vê as FARC em um aviãozinho levando cocaína para os EUA. Nós não somos o problema. Plantações ilegais são o único meio de que os fazendeiros têm para se alimentar. O governo não lhes oferece outra alternativa."

Duber disse que as FARC não estão tentando influenciar as pessoas a votar em algum candidato nas eleições. Para as FARC, todos os candidatos são os mesmos. Mas o grupo mandou sim uma mensagem a Juan Manuel Santos, que poderá vir a ser no Domingo o próximo presidente da Colômbia.

"Juan Manuel Santos quer continuar a guerra, então estamos prontos para lutar. Se houver condições para a paz, então podemos sentar e conversar. Mas é difícil. Santos matou muitas pessoas inocentes enquanto tentava nos matar."

Quando a entrevista acabou, as FARC abriram o bloqueio e subiram de novo para as montanhas. Eles pareciam preparados para mais um combate.

Fonte: http://blogs.aljazeera.net/americas/2010/06/20/farc-side-story-0