segunda-feira, 19 de julho de 2010

O mito do igualitarismo marxista

Me impressiono cada vez mais com as pessoas. Elas adoram opinar sobre tudo, e mais ainda, opinar sobre assuntos que não dominam nem o básico. O pior disso tudo é quando essas opiniões passam a ser compartilhadas por milhões, até bilhões de outras pessoas, até que o que era apenas uma idéia incorreta torna-se subitamente a mais pura verdade. Há muitas pessoas - ditos intelectuais até - que baseiam suas idéias política em um erro grotesco do que seria o socialismo marxista. Defendem o capitalismo porque supostamente o socialismo busca a homogeneidade, o igualitarismo em sua forma mais simples e "pura". Ou seja, para eles, o marxismo seria uma espécie de ditadura que impõe uma roupa igual a todos, casas iguais, produtos iguais, enfim, tudo igual mesmo, inclusive os salários. Daí ocorre uma supressão do individual em prol de uma coletividade homogênea. Surge então uma sociedade estagnada, nada criativa e bastante opressiva.

Agora eu me pergunto, de onde foi que tiraram isso? Dos escritos de Marx e Engels que não foi, já que nem na obra mais básica de todas, "O Manifesto do Partido Comunista", não há nada disso. Inclusive, eles dizem que no socialismo as pessoas devem ser remuneradas de acordo com sua habilidade e produtividade. Bom, nas experiências históricas também não. Já que os bolcheviques jamais igualaram salários de ninguém, um cientista de grande importância ganhava bem mais que um jardineiro mediano, assim como um operário como Stakhanov ganhava muito mais do que um diretor de fábrica mediano. É importante agora frisar uma idéia básica do marxismo: a igualdade, é a igualdade de classe. Ou seja, deve-se abolir a diferenciação entre donos dos meios de produção e trabalhadores que vendem sua força de trabalho. Em outras palavras, deve-se abolir as classes sociais pra que todos REALMENTE possam ter direitos iguais.

Não é hipócrisia socialista o fato de uma pessoa extremamente produtiva ser herói da nação e viver em um apartamento maior e mais bem localizado que um trabalhador que apenas cumpre suas metas. Não é crime uma pessoa querer buscar algo mais que as outras, querer inovar, querer revolucionar, querer crescer profissionalmente. Não é crime ganhar um salário maior que o outro, ter notas maiores que os outros, não é crime destacar-se na sociedade - senão Lênin seria o primeiro a ser condenado na URSS. A diferença básica entre os sistemas reside em alguns pontos listados a seguir:

*É crime ter direito a uma escola muito melhor que a dos outros;
*É crime ter acesso a um sistema de saúde mais eficiente que o dos outros;
*É crime ter privilégios sobre os outros por uma simples questão de nascimento - questão de classe;
*É crime explorar a força de trabalho alheia para seu próprio enriquecimento;
*É crime enriquecer sem prestar a devida conta à sociedade - ou seja, sem ser produtivo;

Isto é uma simplificação, obviamente há tantas outras diferenças, mas o ponto é demolir este mito do igualiarismo marxista. O marxismo reconhece a importância do indivíduo, sempre reconheceu, porém este indivíduo não deve esquecer que pertence a uma sociedade e que há outros indíviduos que merecem seu respeito. Somos um ser social. E dependemos da coletividade para sobreviver. É inadimissível a exploração do homem pelo homem, é inadimissível o privilégio que os meios de produção oferecem aos capitalistas, é inadimíssivel que se considere iguais em direitos e deveres, pessoas que não nasceram e não usufruem das mesmas condições. Como um favelado pode ser igualado em direitos com um magnata da imprensa? Ele não tem acesso a nada, passa fome, freqüenta escolas caindo aos pedaços, isto quando não leva tiro da polícia e morre aos 20 anos. É muito fácil falar, plim! Vocês são iguais. Mas há realmente base para a igualdade de direitos dentro do regime capitalista? Ele não mantém os mesmos privilégios de classe que, por exemplo, a sociedade feudal? É apenas um pouco mais maquiado e um pouco mais aberto para a ascensão de classes, mas isto não o torna democrático.

Quando se abole as classes, quando se provide educação de qualidade e de graça, além de um ambiente saudável e pouco violento a toda uma população, você elimina a problemática dos privilégios quase que por inteira. Aí sim é possível ter igualdade de direitos e democracia. A burguesia revolucionou o mundo com sua lógica, deu os primeiros passos de uma sociedade democrática, mas esta revolução já tornou-se obsoleta, reacionária. É necessário a superação do capitalismo para que a igualdade, a fraternidade e a libedade venham realmente entrar em cena à toda a população humana, e não a uma minoria privilegiada.

É completamente errado apelar a este espírito igualitarista do marxismo para atacá-lo, demonizá-lo. É preciso analisar melhor o que se passou na União Soviética marxista-leninista (já que na revisionista foi bem diferente e, neste sentido devo dizer que talvez a base de toda essa déia resida no revisionismo soviético, já que aí sim, havia uma busca pela igualdade indistinta de salários) antes de sair esboçando críticas pouco concretas e por demais idealistas, ou melhor, ideológicas. A própria idéia leninista, que coloca um Partido como vanguarda classe operária rejeita esta homogeneidade social. É uma idéia simples de que os mais capazes, que os dotados de mais recursos, devem guiar os desamparados à vitória contra seus opressores, caso contrário, dificilmente sairiam da situação de explorados e alienados. Isto supõe uma diferenciação entre os indivíduos, mas esta diferenciação não justifica a dominação, pois ela é, em muitos sentidos, fruto desta dominação. Porque um operário não teria a mesma capacidade de Lênin? Pois Lênin teve acesso a tudo que havia de mais evoluído na sociedade da época, enquanto o operário mal fora alfabetizado, além de viver na penúria, na fome, na violência.

Ao contrário do que aquele e-mail direitista que rola na internet, a sociedade não dá as mesmas condições às pessoas do mesmo jeito que uma universidade em particular dá aos seus alunos (de uma maneira ideal, excluindo qualquer diferença de classe, qualquer manifestação de preconceito, qualquer problema individual). O aluno A e o aluno B receberam a mesma bibliografia do professor, têm o mesmo professor, ficam na mesma sala de aula, têm a mesma biblioteca para poder estudar, entre outras coisas. Mas o A tirou 5 e o B tirou 10 na prova. E aí? Isto prova que indivíduos são diferentes. Mas e se, nessa universidade, o estudante B tivesse acesso a um professor melhor, a livros melhores, a ambientes melhores, que o estudante A? Será que a nota do B não seria inluenciada por seus privilégios? Será que o estudante A não está sendo injustiçado?

Enfim, esta idéia das notas é bem tosca e cheia de furos, além de bastante simplista. Tentei usá-la apenas para fins didáticos. O fato é que um comunista marxista jamais pensou em igualar todo mundo e transformar a sociedade em algo homogêneo. A idéia é igualar as oportunidades, é igualar em direitos, é abolir este privilégio ambulante chamado de classe social, é a justiça social plena. Em que cada um seja remunerado por sua contribuição social, sua produtividade, sua habilidade. E que as pessoas sejam vistas como pessoas mesmo, e não como mercadorias e simples objetos que devem ser usados para se enriquecer, para se buscar a fama e para satisfazer a ganância e o ego.

O mito do igualitarismo marxista não passa disto, de um mito. A igualdade é a igualdade de classes. Sem classes, sem privilégios. Sem privilégios, surge a verdadeira democracia.

*Nota de complemento: Com este post, não quero dizer que havia ricos e pobres na URSS bolchevique - como pode ser interpretado quando eu falei que trabalhadores destacados receberiam mais do que os que apenas cumpriam as metas. A diferença nunca chegava a ser avassaladora como nos regimes capitalistas. Um revolucionário da produção industrial como Stakhanov - sempre uso seu exemplo, pois ele se tornou o "trabalhador modelo" de sua época - receberia aumentos salariais, incentivos materiais, mas ele não ganharia milhões de rublos. Talvez poderia alcançar uma diferença de 3, 4 vezes o salário mediano, jamais 100 vez - e acima até - como ocorre no desigual capitalismo. Até porque o maior incentivo aos trabalhadores vinha da Emulação Socialista, e não de incentivos puramente materiais - o que muda bastante com a vitória do revisionismo kruschovista.

Vale ressaltar que a Emulação Socialista não é puramente bobeira ideológica do regime, ela teve papel fundamental no crescimento gigantesco da URSS dos anos 30, 40 e 50. Inclusive, o Museu da Emulação Socialista de Moscou passou a receber cada vez mais visitas de empresários capitalistas em busca de alternativas para o aumento da produção de suas empresas, alternativas que não apelassem ao puro e simples aumento do estímulo material. Os maiores freqüentadores do Museu foram japoneses, que logo conheceriam seu "boom" econômico.

Recomendo a todos a entrevista com o ex-Comissário do Povo para a Agricultura, Ivan Aleksandrovich Benediktov - disponível em português no site "Para a História do Socialismo" http://hist-socialismo.blogs.sapo.pt/ - a qual ele explica um pouco da diferença das políticas trabalhistas bolcheviques para as políticas trabalhistas do revisionismo kruschovista. Além de salientar a forte presença japonesa nos salões do Museu da Emulação Socialista de Moscou.

2 comentários:

  1. Muito bom. Nesta entrevista o camarada Stálin também fala sobre o "igualitarismo" no socialismo: http://omarxistaleninista.blogspot.com/2010/06/socialismo-igualitario-nao-existe-no.html

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  2. Sem privilégios, surge a verdadeira democracia? uma democracia que só pode surgir a partir de uma ditadura? de um controle do estado sobre tudo? pergunte pra um cubano como é bom ser todos iguais, todos POBRES, pergunte pra um cubano como é ótima a saúde em cuba, na teoria tudo é lindo, mas, acordem pra vida real.

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